quarta-feira, janeiro 31, 2007

O homem que entrou pelo cano

Abriu a torneira e entrou pelo cano. A princípio incomodava-o a estreiteza do tubo. Depois se acostumou. E, com a água, foi seguindo. Andou quilômetros. Aqui e ali ouvia barulhos familiares. Vez ou outra, um desvio, era uma secção que terminava em torneira.
Vários dias foi rodando, até que tudo se tornou monótono. O cano por dentro não era interessante.
No primeiro desvio, entrou. Vozes de mulher. Uma criança brincava. Ficou na torneira, à espera que abrissem. Então percebeu que as engrenagens giravam e caiu numa pia. À sua volta era um branco imenso, uma água límpida. E a cara da menina aparecia redonda e grande, a olhá-lo interessada. Ela gritou:“Mamãe, tem um homem dentro da pia”.
Não obteve resposta. Esperou, tudo quieto. A menina se cansou, abriu o tampão e ele desceu pelo esgoto.

Ignácio de Loyola Brandão

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Mãos presas

Queimava por dentro
tinha uma razão
não queria perdê-la
Era impossível deixar de ouvir
me fazia ordens
eu somente obedecia
abria a porta
e acendia a luz.
Queimava por fora
a fumaça queimava
o fogo dissipava.
Queimava
tinha um motivo
queria queimar o que havia por dentro
não funcionou

terça-feira, janeiro 23, 2007

Carta de Amor

De longe parecia uma carta de amor. Nem ele mesmo sabia o que era uma carta desse tipo. Nunca havia recebido uma e nem enviado. Abriu o envelope perfumado com muita expectativa. O remetente fizera isso por sadismo, sabia que causaria uma ânsia em seu destinatário. Pior ainda foi iniciar a carta mencionando uma saudade que ele nunca pensou em sentir. Escreveu também sobre um desejo que se obrigou a desejar por um capricho seu. Essa saudade, esse desejo e esse capricho custaram à tarde do paciente leitor da carta (de amor?).
Sorria enquanto lia. Não chorava. Nunca foi tão emotivo assim. Será que ele também o ama? Digo também porque foi assim que a carta estava assinada, com um EU TE AMO em letras de forma. Mas o que significava para o remetente essa letra? Como o misterioso receptor interpretava? A carta não foi respondida. Achou insuficiente.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Fome

Devorei todos os biscoitos do pacote. Desejava comer dois ou três, iriam suprir minha fome. Engano. Os primeiros me causaram uma profunda sensação de prazer. Já estava acabando quase a metade do pacote e a impressão que tinha era que o gozo diminuía. Depois disso, tornou-se automático. Mastigava sem nem apreciar um dos meus biscoitos preferidos. O gosto ainda era o mesmo, mas tornaram-se amargos. Eu exagerei. Mas, de qualquer forma, eles perderam o gosto. Fechei os olhos. Caí na cama. Abri os olhos. Estava cheio, mas com disposição para voltar a escrever. Me ergui e deparei-me com todos aqueles farelos em cima do meu corpo, da minha cama, do meu quarto. Eram incrível a quantidade de restos. Eram tantos que custei a acreditar. Cheguei a questionar a possibilidade de ter pisado e esmagado três ou cinco. Tive a impressão de que eu havia esbagaçado todos os biscoitos do pacote no meu corpo, na minha cama, no meu quarto. Senti minha barriga roncar. Não podia ser verdade, a pouco estava satisfeito e lembro de ter comido todos. Corri para o banheiro. Abri minha boca diante do espelho e o reflexo mostrava os dentes limpos, sem nenhum vestígio de biscoito. Só me restava limpar o quarto e abrir mais um pacote.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Cabeça vazia

Não pedi pra ficar calado
nem pra não me escutar
nem disse que não ia ouvir
fiz o que pude
tentei de todas as maneiras
agora, eu não escuto tua voz
não enxergo sua letra.
Seja feita vossa vontade
seja lá qual for
seja paciente comigo
ainda consigo
mesmo não escutando sua voz.
Escuto muitas vozes
uma delas deve ser a sua
é a sua
tenho certeza
deve ser.
Não me concentro
gritos, vozes e ruídos
me perco mais uma vez
na verdade, me desencontro
de mim e de ti.

sábado, janeiro 13, 2007

Lado meu

Por enquanto
essa droga me satisfaz
me liberta
me sufoca
me divide
do que sou
e do que sou
a água no copo
derramada
essa porta
fechada
por dentro
um coração
batendo pouco
apodrecendo
o caderno
rabiscado
e o lápis
apontado
apontado
apontado
mais uma vez apontado
gasto

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Fica




Diz que eu não sou de respeito
Diz que não dá jeito
De jeito nenhum
Diz que eu sou subversivo
Um elemento ativo
Feroz e nocivo
Ao bem-estar comum

Fale do nosso barraco
Diga que é um buraco
Que nem queiram ver
Diga que o meu samba é fraco
E que eu não largo o taco
Nem pra conversar com você
Mas fica
Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Diga ao primeiro que passa
Que eu sou da cachaça
Mais do que do amor
Diga e diga de pirraça
De raiva ou de graça
No meio da praça, é favor
Mas fica
Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Diz que eu ganho até folgado
Mas perco no dado
E não lhe dou vintém
Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
E o que bem lhe agrada, meu bem
Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar

Chico Buarque (1965)

terça-feira, janeiro 02, 2007

Arrancou

Estou cansado
e quero que saiba
que sofro
que choro
que amo
e que espero
te espero.
Sei que disse o oposto
mas sofro
choro
amo
e espero
ainda te espero.
Não vai mudar
continuarei sofrendo
chorando
amando
mas não pretendo te esperar.